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Editorial

Disfunção cognitiva e doença renal crônica

João Macêdo Coelho Filho

A prevalência de doença renal crônica tem aumentado de forma alarmante nos últimos anos1, sendo particularmente alta entre as pessoas idosas. No Brasil, um estudo de base populacional em Bambuí, Minas Gerais, mostrou a prevalência de creatinina sérica elevada de 0,48% em indivíduos adultos e de 5,09% em idosos2. O número de pacientes em regime de diálise tem também aumentado apreciavelmente, com grande impacto em termos de custos para o sistema de saúde. Em 1994, havia 24 mil pacientes mantidos em diálise no Brasil, passando essa cifra para 59.153 em 20043. O grupo de pacientes que se encontram em programas de diálise é, com efeito, cada vez mais representado por idosos4.

As ocorrências de disfunção cognitiva e demência são bem maiores entre pacientes portadores de doença renal crônica que na população geral5. As razões para esse fato não são totalmente estabelecidas, havendo questionamento se estaria relacionado ao efeito direto da uremia ou a fatores de risco clássicos para doenças cardíacas e cerebrovasculares, comuns nesse grupo de pacientes e reconhecidamente associadas à maior ocorrência de demência. Estudos recentes, no entanto, sugerem que a associação entre doença renal crônica e disfunção cognitiva é independente da presença desses fatores de risco e da ocorrência de doenças circulatórias6. Potenciais mediadores de disfunção cognitiva em pacientes com doença renal crônica têm sido considerados, incluindo anemia, níveis séricos elevados de homocisteína e estresse oxidativo aumentado.

Anemia é uma conseqüência habitual da doença renal crônica, sendo relatada como possível fator de risco para demência em pacientes submetidos à hemodiálise7. Os níveis séricos de homocisteína, por sua vez, encontram-se aumentados na doença renal crônica em fase moderada8. No estudo de Framingham, homocisteína aumentada foi identificada como fator de risco para doença de Alzheimer9. Também de interesse, na análise dos possíveis mecanismos que expliquem a maior ocorrência de disfunção cognitiva e demência nos portadores de doença renal crônica, é o achado de um aumento de estresse oxidativo na insuficiência renal crônica10. Estudos encontraram associação entre níveis reduzidos de antioxidantes e maior ocorrência de demência vascular e do tipo Alzheimer11.

Em face da importância, tanto do ponto de vista clínico como de saúde pública, com que se reveste a associação entre doença renal crônica, disfunção cognitiva e demência, investigações nessa área apresentam-se altamente pertinentes. Na presente edição de Geriatria & Gerontologia, Nogueira et al.12 suscitam uma questão adicional importante, e ainda pouco explorada na literatura, que é a possível associação entre disfunção cognitiva e mortalidade em idosos.

Com base na evidência atualmente disponível, a avaliação da função cognitiva apresenta-se cada vez mais como elemento essencial na consulta de pacientes portadores de doença renal crônica, especialmente entre aqueles na faixa etária mais avançada.

 

REFERÊNCIAS

1. Atkins RC. The epidemiology of chronic kidney disease. Kidney International. 2005; 67: S14-S18.

2. Passos VMA, Barreto SM, Lima-Costa MFF. Detection of renal dysfunction based on serum creatinine levels in a Brazilian community.The Bambuí Health and Ageing Group. Braz J Med Biol Res. 2003;36:393-401.

3. Româo Junior, JE. Doença Renal Crônica: definição, epidemiologia e classificação. J Bras Nefrol 2004;26(3):1-3 (disponível em: http://www.sbn.org.br/JBN/26-31/v26e3s1p001.pdf)

4. Giuseppe P, Mario S, Barbara PG, Paola M, Pacitti A, Antonio M, et al. Elderly patients on dialysis: epidemiology of an epidemic. Nephrol Dial Transplant. 1996;11(Suppl 9):26-30.

5. Madan P Kalra OP Agarwal S, Tandon OP Cognitive impairment in chronic kidney disease. Nephrol Dial Transplant. 2007;22:440-4.

6. Seliger SL, Siscovick DS, Stehman-Breen CO, Gillen DL , Fitzpatrick A, Bleyer A, Kuller LH. Moderate renal impairment and risk of dementia among older adults: the Cardiovascular Health Cognition Study. J Am Soc Nephrol. 2004;15(7):1904-11.

7. Murray A, Li S, Collins A. Anemia as a risk factor for incident dementia in hemodialysis patients [Abstract]. J Am Soc Nephro. 2002;13:628A.

8. Persons D, Reaveley D, Pavitt D, Brown E. Relationship of renal function and homocysteine and lipoprotein(a) levels: The frequency of the combination of both risk factors in chronic renal impairment. Am J Kidney Dis. 2002;40:916-23.

9. Seshadri S, Beiser A, Selhub J, Jacques PF, Rosenberg IH, D'Agostino RB, et al. Plasma Homocysteine as a Risk Factor for Dementia and Alzheimer's Disease. N Engl J Med. 2002;346:476-83.

10. Dantoine TF, Debord J, Charmes JP Merle L, Marquet P, Lachatre G, Leroux-Robert C. Decrease of serum paraoxonase activity in chronic renal faliure. J Am Soc Nephrol. 1998;9:2082-8.

11. Paragh G, Balla P Katona E, Seres I, Egerhazi A, Degrell I. Serum paraoxonase activity changes in patients with Alzheimer's disease and vascular dementia. Eur Arch Psychiatry Clin Neurosci. 2002;252:63-7.

12. Nogueira CB, Geleilete TJM, Moriguti JC, Lima NC, Ferriolli E, Bastos-Barbosa RG, et al. Impacto do status cognitivo, depressão e parâmetros bioquímicos na mortalidade de idosos com insuficiência renal crônica em hemodiálise. Geriatria & Gerontologia 2008;2:6-11.


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